Entrevista com o colecionador José Carlos Daltozo para a Revista Correio Filatélico (editada pelo Correio) em 16.10.2007

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1 – Como surgiu a idéia de colecionar cartões-postais?

Sempre gostei de fotografias, tanto em revista e livros como aquelas que eu mesmo fotografava nas cidades visitadas. Diante da impossibilidade de obter fotos com vistas aéreas de cidades, ou interior de museus e edifícios históricos, passei a comprar alguns postais, ainda sem a idéia de colecioná-los. Isso foi nas décadas de 1970 e 1980. Um dia, em 1988, li entrevista num jornal sobre a existência de uma Sociedade Brasileira de Cartofilia (hoje extinga), com sede em Brasília, entrei em contato e, ao receber dicas de outros colecionadores, passei a colecionar postais sistematicamente. Tinha, na época, uns 200 postais misturados às fotografias, hoje a coleção passa dos 130.000 postais do mundo inteiro. Entre eles há algumas raridades, postais de 1898, 1900, 1901, ou seja, com mais de cem anos de existência. Uma coleção de postais é também uma grande fonte de pesquisas, inclusive muitos livros de arte sobre cidades e países utilizam postais antigos como iconografia. Eu mesmo já cedi alguns postais para diversos livros, entre eles um recente, sobre Santos Dumont, da jornalista Marleine Cohen, publicado pela Editora Globo, com o título “Sim, sou eu, Alberto”. Ela reproduziu dez postais da minha coleção, mostrando Paris de 1900 a 1915.

José Carlos Daltozo e sua coleção de postais.

2 – Em umas dez a 15 linhas, o senhor poderia fazer o histórico do postal no Brasil e no mundo?

Oficialmente, o cartão-postal surgiu na Áustria como um meio de comunicação fácil e mais barato que a carta comum, pois era enviado em aberto (sem envelope). Foi idealizado pelo professor Emmanuel Hermann e aceito pelo Correio Austríaco, começando a circular em 01 de outubro de 1869. Era uma simples cartolina tamanho 9 X 12 cm, tendo na frente apenas a ilustração do brasão do Império Austro-Húngaro no canto superior direito e, embaixo, espaço para a mensagem. No verso, só havia espaço para informar nome e endereço do destinatário. A novidade foi logo adotada por outros países europeus, tendo sido implantado na Alemanha e Inglaterra em 1870, Holanda e Bélgica em 1871, na França em 1873 e na Itália em 1874. No Brasil, ele foi adotado apenas em 28 de abril de 1880, pelo Decreto 7.695. Na exposição de motivos que o Ministro Buarque de Macedo encaminhou ao Imperador D.Pedro II, visando obter autorização para confeccção e circulação do postal no Brasil, mencionou “os postais são de intuitiva utilidade para a correspondência e, longe de restringir o número de cartas, como poderá parecer, verifica-se nos países que já o adotaram, que um dos seus efeitos é aumentá-lo”. No início, o postal era monopolio do Correio, pois somente ele poderia emiti-los. Com o passar dos anos, os fotógrafos independentes e as gráficas foram autorizados a produzi-lo, provocando sua grande difusão.

3 – E o uso da fotografia? Como e quando passou a ser mais utilizada?

O ser humano sempre teve a preocupação de fixar as imagens do mundo ao seu redor. Quando ainda morava nas cavernas, ele desenhava nas paredes imagens de animais, plantas e pessoas do seu habitat. É o que chamamos hoje de arte rupestre. Mais tarde surgiram os desenhos em papiros no Egito, as esculturas gregas, as pinturas sacras, os grandes retratistas da Idade Média, evoluindo para a gravura, a fotografia, o cinema e a televisão.

O cartão-postal, concebido para ser apenas um meio de comunicação escrita, enviado em aberto e com menor tarifa postal, em poucos anos de vida passou a ser um grande difusor de imagens. Inicialmente mostrava desenhos e gravuras, depois a fotografia. nos últimos anos do século 19. Quando começou a mostrar fotos, o postal finalmente atingiu sua plenitude como meio de comunicação de massas e difusor de conhecimentos.

Nos cartões-postais não há só belas fotos industrializadas, há também história, geografia, turismo, modo de vida, meios de transporte, usos e costumes, arquitetura e urbanismo, curiosidades sobre povos e países. Outro importante detalhe é que, nos primórdios do uso da fotografia nos postais, estes eram produzidos mais por fotógrafos autônomos do que por estabelecimentos gráficos. O grande feito do cartão-postal, portanto, foi a popularização da fotografia. Sendo reproduzida em grande quantidade, todo mundo podia adquirir vistas de diferentes cidades e seus locais turísticos, enviando-as aos parentes e amigos. E, mais interessante ainda, numa época que as revistas e jornais traziam escassas gravuras e fotografias, o postal foi o principal difusor da fotografia no mundo. Tudo era reproduzido em postais, até mesmo enchentes, incendios, terremotos, erupções vulcânicas, guerras. Ou então eventos especiais, como os esportivos, as visitas de presidentes, reis e rainhas, as comemorações cívicas etc. Virou moda colecioná-los, as décadas de 1900 a 1930 são consideradas a “era de ouro da cartofilia”.

4 – Quais são os temas mais comuns para uma coleção de postais?

A maioria dos colecionadores faz tema geral, do Brasil e Exterior. Ou seja, nessas coleções cabem todo tipo de postais, até mesmo os publicitários, que estão virando mania na atualidade. Mas há um número razoável de colecionadores temáticos, alguns só colecionam postais de aviões, outros de navios, trens e estádios de futebol. Outros escolhem dois ou três temas que mais lhe agradam. Numa coleção de postais como a minha, que é gigantesca, posso afirmar que as fotos mais comuns em postais são, na atualidade, as vistas de cidades, as fotos de praias e as igrejas.

5 – Quais as principais dicas que o senhor daria para um iniciante de uma coleção de postais?

Colecionar postais é viajar pelo mundo sem passaporte e sem atrasos em aeroportos e rodoviárias. O colecionador iniciante deve, primeiro, comprar os postais nas cidades que visitar. Depois, informar amigos e parentes que é colecionador, dessa forma poderá receber muitas doações. Muita gente compra postais em viagens, mostram aos parentes e amigos e, depois, jogam numa gaveta. Num dia de limpeza, vão para o lixo. Se doados a um colecionador, os postais ficam preservados para a posteridade. Eu mesmo já recebi doações de 100, 200 e até 700 postais de pessoas que pretendiam jogar no lixo, mas lendo sobre minha coleção em revistas e jornais, ou na tevê, resolveram doar. Outra dica é fazer trocas de postais com colecionadores de outros Estados. Quando encontrar uma cidade que tenha um bom número de postais, comprar alguns repetidos, para ter material de troca. Que outra maneira o colecionador vai conseguir postais que estão sendo lançados neste mês em Manaus, Recife ou Porto Alegre, se não tiver um colecionador naqueles locais, atentos aos lançamentos, para fazer trocas?

6 – O senhor poderia nos dizer quantos colecionadores existem hoje no Brasil, de cartões-postais?

Não há uma estatística, mas de acordo com algumas associações de colecionadores como a AFNB de Brasília, a ACARJ do Rio de Janeiro, a FILACAP, a SOCOPE, o CLUBE DO MANCHE e outras mais, creio que são mais de 2.000 os colecionadores existentes no Brasil. Há alguns que são associados de vários clubes, outros só de um dos clubes. Além desse número, há muitos que nem sabem que são colecionadores, pois não fazem intercâmbios, não trocam postais, mas compram nas cidades que visitam ou guardam os que recebem dos amigos e parentes.

7 – Seu livro é o único sobre o assunto no Brasil? Fale-nos um pouco sobre ele, como surgiu a idéia de escrevê-lo.

Existe pouca literatura sobre cartofilia (coleção de postais) no Brasil. Um dos pioneiros foi o colecionador e professor da Universidade de Brasília, Antonio Miranda, que lançou o livro “O que é cartofilia” na década de 1980. Há também artigos e ensaios esparsos em vários livros, principalmente os que tratam da história da fotografia e mencionam o postal em seus escritos, a exemplo do Boris Kossoy e Pietro Maria Bardi. Até mesmo o sociólogo Gilberto Freyre tem um ensaio sobre postais no livro “Alhos e Bugalhos”. Minha idéia de escrever o livro CARTÃO-POSTAL, ARTE E MAGIA foi justamente fazer um apanhado de todos estes livros, além de relatar aspectos não abordados pelos precursores. Outra idéia acertada do meu livro foi solicitar a colaboração a 50 colecionadores, cada um escreveu uma página contando como começou a colecionar, a importância dos postais na vida deles, os rumos da cartofilia atual etc. Entre esses colecionadores há muitos profissionais liberais (médicos, engenheiros, advogados), até parece que esse hobby é uma forma de combater o stress da vida moderna. Há, ainda, muitos professores, comerciantes, industriais, funcionários públicos, além de muitos aposentados e pessoas idosas, que fazem da coleção um modo de “viajar sem sair da poltrona preferida, na sala de suas casas”. Alguns filatelistas também fazem coleção de postais simultaneamente. Alguns colecionam tema geral, outros só um tema específico, e há os que só colecionam máximos postais que eles mesmos preparam com todo rigor e prazer.

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