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José Carlos Daltozo é jornalista, historiador e colecionador de cartões postais há 21 anos. Neste artigo cheio de curiosidades, Daltozo criou uma suposta entrevista para um cartão postal.

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Entrevistador: Quer dizer, então, que você já tem 140 anos de idade? Onde você nasceu?

Cartão Postal: Pois é, completei 140 anos recentemente, pois fui criado oficialmente em 01 de outubro de 1869, na Áustria.

E: Quem foi seu pai e qual a pretensão dele?

CP: Meu pai foi o professor Emmanuel Hermann, ele queria que eu tivesse uma tarifa postal menor, para facilitar as comunicações entre as pessoas.

E: Atingiu os objetivos?

CP: Sim, atingiu plenamente. Temos que lembrar que naquela época, ou seja, em 1869, o correio era transportado a cavalo ou em diligências e era muito caro. Por isso, com o meu uso, enviado a descoberto, a tarifa era metade do valor da carta fechada.

E: Só os austríacos é que tinham o privilégio de ter postais?

CP: No primeiro ano sim, mas no ano seguinte a Alemanha, Inglaterra, Suíça e Luxemburgo também resolveram me adotar. E, nos anos seguintes, vários países europeus fizeram o mesmo.

E: Demorou para você ser adotado no Brasil?

CP: Realmente demorou um pouco, pois fui lançado oficialmente no Brasil apenas em 28 de abril de 1880. Foram quase onze anos após meu surgimento na Áustria.

E: Como era seu aspecto no início?

CP: Ah, eu era bem feioso. Nada mais que uma simples cartolina tamanho de 8,5 cm por 12 cm, tendo na frente apenas o símbolo do Império Austríaco no canto superior direito e no verso espaço para o endereço do destinatário.

E: Não tinha nenhuma outra ilustração?

CP: Não, era só esse brasão, o restante do espaço era usado para escrever uma curta mensagem ao destinatário. No verso, como já disse, só havia espaço para nome e endereço a quem se destinava.

E: Mas na época em que você foi criado, a fotografia já existia há 43 anos, pois foi inventada em 1826 e disseminada nos anos seguintes. Porque você não mostrava fotos no início de sua vida?

CP: Disseminada não é bem o termo, pois a fotografia era caríssima, só os nobres e pessoas bem de vida tinham acesso a ela. As camadas médias e mais simples nem sabiam da existência da fotografia, a não ser com raras exceções.

E: Quando começou a sua efetiva popularização?

CP: Minha popularização começou nos primeiros anos da década de 1890, quando surgiram na Europa os primeiros postais que traziam pequenos desenhos e pinturas numa das faces. Mesmo assim, demorou alguns anos para que eu reproduzisse fotos de pessoas, cidades e paisagens. Mas, quando começaram a imprimir fotos numa das minhas faces, a procura foi gigantesca. Posso afirmar, com certeza, que fui o grande veículo disseminador da fotografia no mundo. Devemos lembrar que não havia televisão, os livros, jornais e revistas traziam escassas ilustrações, a população mundial estava ávida de ver estampada, não só fotos de cidades, mas também de acontecimentos de todo tipo: visitas de reis, rainhas e presidentes, comemorações cívicas e religiosas, além de enchentes, terremotos, incêndios, acidentes de trânsito. Eu aceitava tudo, todos esses acontecimentos, fossem bons ou ruins, eram estampados em mim. Ajudei a melhorar a comunicação entre os seres humanos.

E: Como é sua vida hoje?

CP: Atualmente, com essa oferta gigantesca de imagens no cotidiano das pessoas, seja em televisores, DVDs, livros e revistas, câmeras digitais e até nos diminutos celulares, minha fama diminuiu um pouco. Mas não morri, nem morrerei (espero). Sou atualmente um veículo eminentemente turístico, divulgando as belezas deste vasto mundo. Ainda bem que há muitas pessoas, em todo o mundo, que me colecionam. É uma maneira gostosa de comparar como era uma cidade antigamente, comparando com uma foto atual. Além disso, numa coleção de postais as pessoas podem estudar e pesquisar a história, geografia, modo de vida, usos e costumes de povos e países, sociologia, urbanismo, meios de transporte… e ainda a própria evolução da fotografia e da indústria gráfica.

José Carlos Daltozo é Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Venceslauense de Letras. Possui a quinta maior coleção existente no Brasil, com mais de 150.000 exemplares do mundo inteiro. E aceita doações e permutas. Caixa Postal 117: 19500-000: Martinópolis: SP: E-mail: jcdaltozo@uol.com.br